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Coluna Card Player Brasil

Junho (FIELD SOFT NO LAPT LIMA – Mas nem tudo saiu como planejado)

Acabei de voltar de Lima, de uma semana que certamente já está na história do poker latino-americano.  Confesso que quando assisti ao anúncio do LAPT Peru, na festa de abertura do LAPT Punta Del Este, fiquei bastante cético em relação ao sucesso dele. Para falar bem a verdade, achei que seria um desastre. Isso porque eu já tinha visitado o Peru há uns três anos e, tirando a beleza de lugares como Machu Picchu e Cuzco, o restante do que conheci me deixou uma impressão de pobreza e pouco desenvolvimento. Então, quando foi anunciado que o próximo LAPT seria no Peru, fiquei com a aquela sensação de “não pode ser…” Mas na minha visita anterior ao Peru, o bairro Miraflores, em Lima, tinha passado totalmente despercebido. É a região mais bacana da capital peruana. Tem desde prédios comercias, shoppings, hotéis e restaurantes, todos sobre uma encosta rochosa de frente para o mar, até o Casino Atlantic City. Só então fui saber que ele é considerado um dos maiores e melhores cassinos da América do Sul.

Bom, mas foi só quando o torneio começou que se pôde perceber o sucesso que ele seria. Estrutura do cassino impecável, mesas alinhadas, dealers a postos, equipes de televisão e imprensa, e, finalmente, 384 jogadores que iriam começar a disputa por quase 1milhão de dólares em prêmios. Foi o segundo maior LAPT da história.

Cartas na mesa, agora vamos falar de poker. Minha primeira mesa, assim como o field do torneio em geral, era muito “soft”. O Dia 1 começou com uma estrutura bem deep stacked, com 20.000 fichas e blinds de 50/100 com níveis de 1 hora. Comecei jogando bem tight, participei de poucas mãos na primeira hora. Já que a estrutura permitia, resolvi prestar bastante atenção à mesa e ter uma ideia sobre cada jogador antes de começar a me envolver com mãos marginais. Acho que no segundo level de blinds eu já tinha uma boa noção sobre cada um da mesa. Isso porque o número de limps, calls e showdowns foi muito alto. O único jogador que se sobressaia era um austríaco de 19 anos, regular de cash game NL1K do PokerStars. Fora ele, o resto era fish-maniac ou loose-passive. E a maioria da mesa era muito calling station. Logo, havia muito pouco espaço para blefe.

Durante o torneio todo, tive muitas flutuações de stack. Vou contar algumas das principais mãos e os fatores que eu considerava quando envolvido nelas. A primeira mão mais expressiva em que me envolvi foi justamente o que eu vinha planejando para não acontecer: contra o austríaco, fora de posição. No segundo nível (75/150) dois limpers (o que era muito comum) entram de posição inicial e ele isola de posição intermediária. Eu tinha 8♣7♣ no big blind. Por estar certo de que os limpers iriam participar junto e por estar muito deep, eu não iria dar fold ali, apesar de ser raro eu dar call com suited connectors fora de posição. Eu poderia ter tribetado, mas achei melhor não, pois o austríaco também estava jogando tight até o momento, e não estava isolando tantas mãos assim, então eu acreditava que o range dele fosse tight, apesar dos limpers.  O flop veio 5♦9♣J♣, todos deram check e ele fez uma continuation-bet de pouco mais de metade do pote. Eu não acho bom um raise nessa situação porque, além de o flop acertar também os ranges dos limpers, o austríaco certamente não estava blefando ali e poderia facilmente ter 99, JJ+ ou duas overcards com flush draw, de modo que eu não vejo como ele poderia dar fold diante de um check-raise. Fora isso, tenho odds suficientes para dar call e jogar só pela força da minha mão e, quem sabe, continuar com algum dos limpers no pote.  Estes deram fold e o turn foi uma Q♥. Dei check e ele apostou 1/3 do pote. Nesse momento, ele me deixou confuso em relação ao que ele queria que eu fizesse. Podia ser uma aposta para controlar tamanho do pote, também para preparar um possível blefe no river ou ele poderia estar tentando induzir um check-raise. Mas, em caso de blefe, poderia ser também mais uma tentativa de me tirar do pote, já que a dama estava no range dele. O fato é que eu resolvi não dificultar aquela situação inventando algo criativo e apenas dei call, pois ainda tinha muitas odds. O river foi blank e ele fez o que parecia uma value bet. Como dei fold, não tive showdown para obter mais informações sobre como ele jogava.  Acabei jogando a mão de forma passiva, mas essa foi a melhor forma que eu encontrei.

Com blinds de 100/200, o austríaco abre com 525 de middle position e o cutoff dá call. Eu tenho QQ no small blind e faço tudo 1.750. A ação volta e ele e me dá 4-bet para 5.400. De novo eu estava fora de posição contra o austríaco e me sentindo desconfortável. No começo dessa mão, eu tinha 17.000 fichas. Minha imagem na mesa era bem tight. Pensei um pouco e dei fold. Apesar de não ter sido um fold fácil, algumas coisas me ajudaram. Eu tinha ficado amigo do austríaco na mesa, e estávamos conversando bastante quando não envolvidos em alguma mão. E eu falei para ele que ia ser um fold difícil, que eu tinha uma mão boa, e ele então me disse algo do tipo: “Nah, você está dando squeeze”. Isso me ajudou a dar fold, pois achei isso claramente uma tell reversa. Fora isso, nesse momento ele tinha mais de 30K em fichas, e certamente não daria fold em AK depois de ter dado 4-bet de quase 1/3 do meu stack.  Mais tarde, no fim do dia, saímos conversando do cassino e, como haveria um remanejamento de mesas para o segundo dia, ele não se importou em me dizer que tinha KK. Mas, mesmo que tivesse AK, eu não teria ficado triste com meu fold, porque, como eu disse, a mesa era muito fraca, e eu ainda teria situações bem melhores do que um coinflip para tentar construir stack.

Depois de mais algumas mãos eu fiquei reduzido a 14K, não conseguia encontrar boas situações e dificilmente recebia alguma mão jogável, até que, no button, recebi AQo e dei call em um raise de um fish-maniac. O flop veio Q-high, e ele blefou nas três streets com par de seis. Depois disso, tive mais algumas boas mãos e fui para o intervalo com 27.000 fichas. O fato de eu ter recuperado rapidamente meu stack me deixou confiante e me fez esquecer a forma como eu tinha ganhado as fichas. Praticamente todas as mãos tinham sido no showdown. E, na volta do break, depois de mais ou menos 30 minutos, meu stack caiu de 27K para 9K. Apareceram alguns coolers no meio do caminho, mas pelo menos em dois potes eu perdi muitas fichas por blefar contra os calling stations, que eram maioria na mesa. Foi muito frustrante ver meu estoque reduzido a 1/3 logo depois de voltar do break. Nessas horas o mais fácil é botar o resto fora. Mas eu relutei ali e tentei me concentrar para jogar muito tight de novo, pois sabia que, se eu acertasse qualquer coisa, eles iriam me pagar tudo. E eu iria me aproveitar da minha imagem, que estava destruída após ter perdido vários potes em sequência e mostrado alguns blefes. Tive sorte de dobrar logo em seguida em um confronto de KK vs. JJ all-in pré-flop e voltei para 18K. A partir daí, foquei em não dar “spew” (vomitar) em mais nenhuma ficha e abusar de overbets e value bets com minhas mãos boas. Acabei o Dia 1 com 43K.

Para o Dia 2, as mesas foram sorteadas novamente. Com blinds de 500/1.000, comecei o dia como small blind. Nem deu tempo de conhecer a galera da mesa direito, no meu primeiro UTG recebi A♥K♥ e abri raise de 2,5K. Recebi calls do button e do BB. O flop veio 5♦7♦K♣. Saí apostando 5,5K no flop, o button deu fold e o BB foi all-in com 17,5K. Eu dei call, ele mostrou KK. Isso diminuiu meu stack pela metade, mas ainda não era para se desesperar. Não demorou muito para eu perceber que a mesa no Dia 2 era quase igual à do Dia 1: muitos calling stations, muitos showdowns, alguns jogadores entrando de limp com menos de 20BB. Até que o UTG+1 entrou de limp com 1,2K, o jogador à minha direita (que era um short stack agressivo) foi all-in com 15K e eu empurrei por cima com 17K. O limper deu fold e meu AJ se segurou contra ATo.

Quebrada a mesa, quando estou chegando à mesa nova tem um pote imenso sendo disputado. Nacho Barbero dá raise de middle position, toma uma 3-bet do cutoff e o button vai all-in. Nacho vai all-in e o cutoff paga. Nacho tem JJ, o cutoff tem KK e o button estava fazendo um move com QTs. No turn aparece um valete e Nacho ganha um pote de 200K. E eu, que tinha acabado de chegar, me sentei exatamente à direita do novo chip leader. Que fase!

Curiosamente, nesse momento, à esquerda de Nacho estava o americano Ben Barrows (que estava com stack menor que o meu) e, à esquerda dele, uns 15 minutos mais tarde, chegou à mesa Jacob Baumgartner, que era o segundo em fichas. Então nem precisa comentar que a minha situação não era nada agradável. Eu tinha 20BB e, dos três jogadores à minha esquerda, dois tinham os maiores stacks do torneio e outro era um short stack que parecia saber bem o que fazia.

Infelizmente, passei muito tempo sem ter nenhuma mão próxima do jogável. E a mesa mantinha um ritmo de agressividade muito alto, com vários jogadores bons. As melhores situações que eu encontrava para ganhar fichas eram quando a mesa rodava em fold e eu podia ir all-in no blind do Nacho. Isso aconteceu três vezes e na primeira, para minha surpresa, ele deu fold com A-high quando eu fui all-in com 16BB. Na segunda oportunidade que rodou em fold, fiz o mesmo. Meu stack ficou oscilando entre 15BB e 22BB por um bom tempo, até que, na terceira vez, empurrei tudo com KJo e Nacho (pela 2ª vez tendo A-high num situação de “blind vs. blind” contra mim) resolveu dar call com A5s. Um call fácil, por sinal. Não bateu nada e eu acabei caindo mais ou menos em 70º, faltando 22 jogadores para a bubble.

Realmente era o torneio dele. Na mesa semifinal, quando era o 5º em fichas, ele abriu raise de posição inicial, tomou 3-bet de Chris Conrad (um jovem americano muito bom e agressivo) e resolveu dar 4-bet all-in colocando seu torneio em risco. Chris, depois de pensar um pouco, deu call com AQo e Nacho mostrou 84o. Um pote gigante ficou no centro da mesa, até bater um 8 no river e deixar Nacho com a mão no bicampeonato.

Uma última curiosidade desse torneio: eu havia dito que, quando cheguei à mesa, Ben tinha um stack menor do que o meu, de uns 15BB aproximadamente. Quem o dobrou foi justamente Nacho, em um all-in pré-flop em que o 99 de Ben se segurou contra AKs do argentino. No heads-up final, eles voltaram a se encontrar, mas dessa vez Nacho levou a melhor. Parabéns a Jose “Nacho” Barbero, por um feito inédito na história do poker latino americano.

Agora vamos lotar o LAPT de Floripa, que tem tudo para ser o maior de todos os tempos!

Maio (POKER ESPORTE CLUBE, Um Jogo de Alto Nível!)

Ultimamente tenho presenciado vários debates, principalmente em fóruns e blogs, sobre o acirramento da competição no meio do poker. De fato, os tempos são outros.

Não há dúvidas de que o nível técnico de hoje superou de longe o dos anos passados. Mas seja pelo ajuste de qualquer atividade no mercado, seja pela evolução do esporte, esse era o seu rumo natural. Entendo que os profissionais do poker, incluindo jogadores, empresários e pessoas que trabalham em empresas ligadas ao poker, têm muito mais motivos para celebrar do que qualquer outra coisa.

A popularização do esporte e o sucesso das várias organizações que participam desse mercado tiveram talvez sua maior conquista no final de abril, quando, no dia 29, foi dada a notícia de que o poker havia sido incluído na IMSA (International Mind Sports Association). Como se não bastasse, o poker agora também fará parte das Olimpíadas da IMSA – a World Mind Sports Games – que acontecerá paralelamente aos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres.

Passando agora paras as mesas, acho que em breve já começaremos a sentir os efeitos dessa conquista. Esse pode ser o primeiro passo para a legalização do poker em vários países onde ele está às margens da lei. Questões como dificuldade de depósito, impostos e não aceitação social geram empecilhos resultantes da falta de regulamentação. Como consequência, a evolução do jogo e o fluxo de novos jogadores que vinha sendo estancado agora não serão mais impeditivos para a continuidade e crescimento do poker.

Talvez o único ônus disso tudo seja que atualmente enfrentamos adversários cada vez mais preparados. Mas com a difusão da informação, nem poderia ser diferente. Para ter sucesso financeiro hoje em dia, um profissional de poker passa pelas mesmas dificuldades que um empresário, médico, advogado, engenheiro etc. A competição está nivelada por cima. Mas isso está longe de ser o fim do mundo. Apenas exige mais trabalho e esforço, como nas outras profissões. Eu particularmente sinto que ainda existe muito espaço para evoluir no poker, inovações a serem experimentadas, jogos novos a aprender, enfim, muito lucro nas mesas.

Acho que a primeira coisa que um jogador deve fazer, seja ele um profissional ou um amador que quer correr o risco de ganhar uma bolada com esse hobby, é escolher um jogo e se especializar. Isso não significa abandonar os outros. Muito pelo contrário. Mas, digamos, reservar pelo menos 70% do seu tempo de prática para jogar aquela modalidade, e 70% do seu tempo de estudo para buscar informações sobre aquele jogo. Mas a diversificação no tempo restante é muito importante. Eu, que foco minhas atenções principalmente nos SNGs, sempre que volto de uma jornada de cash ou MTT, me sinto mais criativo, às vezes saco umas jogadas diferentes, tento coisas novas. Dando certo ou não, isso sempre mexe com meu jogo e me ajuda a refletir mais sobre ele, questionar padrões e tentar evoluir.

Uma vez escolhido a modalidade, agora é hora de buscar todas as informações possíveis. Se você fizer bom uso de cursos, sites de treinamento, coaching, fóruns, revistas, livros, etc., certamente isso lhe fará desenvolver seu jogo de forma muito mais sólida e rápida. É também imprescindível aprender a manusear os softwares de apoio. As informações contidas ali são preciosas, e mais ninguém pode lhe dar. Chegando finalmente às mesas e ao lobby do site, saiba manuseá-los como a palma da sua mão. Achar as mesas mais rentáveis, os torneios mais EV, os formatos de SNG que mais lhe atraem.

Outra coisa que é preciso ter em mente é que existe mais de uma forma de se obter lucro no poker online hoje em dia. Pode ser tanto através da mesa em si, quanto por volume e rakeback. Se a escolha for o lucro direto das mesas, jogue menos mesas, estude seu jogo a fundo, procure leaks (vazamentos, falhas no jogo), analise seus adversários, estude os melhores jogadores do seu stake e veja o que eles fazem. Se a opção for volume e rakeback, escolha o site em que seja possível jogar mais mesas, que tenha mais “action” e, fundamentalmente, que tenha um bom sistema de rakeback. Há algumas semanas eu postei em meu blog alguns cálculos sobre rakeback no PokerStars e mostrei que um SuperNova tem rakeback maiores do que 40%. É uma possibilidade de lucro, qualquer que seja sua opção, que não dá para deixar passar. Faça suas escolhas e, com determinação, os resultados são uma mera questão de tempo. ♠

Abril (ESCALANDO A MONTANHA Bankroll Management e Variação – Parte II)

Na edição passada, vimos que bankroll management e variação estão fortemente ligados.  Agora, vamos sair da teoria e passar para a prática, e conversar sobre as formas e ferramentas adequadas para controlar e desenvolver seu bankroll. Qual a melhor forma de construir um bankroll? Que modalidades jogar? Cash ou torneio? Com qual buy-in? Em que momento tenho bankroll suficiente para me aventurar em stakes mais altos?

A questão de qual modalidade jogar é muito particular. Cada jogador terá que fazer suas escolhas, e não há como apontar que forma de poker é mais rentável que a outra. Se você está nessa situação e tem dúvidas, navegue pelas diversas variantes e descubra em qual você se sente melhor, em qual o tempo parece passar mais rápido e qual lhe dá mais vontade de se aprimorar. A partir da sua opção, procure concentrar esforços para desenvolver seu jogo. A única ressalva que faço diz respeito à construção de bankroll: como afirmei na primeira parte deste artigo, acredito que as melhores opções são cash game e sit-and-go. Torneios eu deixaria para um segundo momento, devido à maior variação, o que torna difícil determinar se o jogador é vencedor ou não.

Para os fins deste artigo, vamos presumir que somos vencedores em determinado jogo, afinal, não existe bankroll management que impeça um jogador ruim de quebrar. Com isso em mente, podem surgir perguntas como: “Sou vencedor em nl25 – qual o bankroll necessário para subir para nl50?” ou “Tenho um bom ROI (Return of Investment) nos SNGs de $3 e certamente tenho habilidade para vencer nos de $6. Quanto devo ter de bankroll para não correr o risco de quebrar se enfrentar uma variação negativa na primeiras sessões do novo stake?”

Pois bem, quando determinamos nosso bankroll, o principal objetivo é simples: não quebrar. Apenas a título de curiosidade, existe um cálculo que indica o percentual de chance que temos de falir, o ROR (Risk of Ruin), que leva em conta variação e winrate. Mas, para não nos determos a fórmulas matemáticas, vou apresentar três abordagens de bankroll management: uma conservadora, voltada para quem pretende jogar profissionalmente ou, mesmo sendo amador, não pode correr o risco de falir; uma moderada, para quem estiver disposto a correr um risco maior e prioriza uma escalada rápida na subida de stakes; e uma de alto risco, para quem quiser “dar tiros” em mesas mais caras ou não se importa caso sejam necessárias mais recompras, conforme o quadro a seguir.

Conservador Moderado Alto Risco
NL – cash games 100 buy-ins 50 20
Sit & Go 100 buy-ins 50 20
Torneios 200 buy-ins 100 50

Cheguei a esses números através cálculos de ROR e de minha experiência pessoal. Muitos jogadores já escreveram sobre esse tema, e alguns usaram números mais ousados. Por outro lado, também já encontrei números bem mais conservadores do que os do quadro, principalmente para torneios. O que posso afirmar é que o risco de um jogador vencedor falir utilizando a abordagem conservadora é baixíssimo.

Pode soar estranho falar em “conservadorismo” quando o assunto é poker. O único momento em que um jogador pode ser chamado de conservador é quando comparado a outro jogador, pois nosso esporte é, por natureza, para quem gosta de risco. Mesmo assim, é importante estar alerta para os riscos existentes, e escolher com quais queremos arcar.

Como se pode notar, toda essa conversa na verdade gira em torno da variação. Para enquadrarmos melhor nosso perfil, devemos não apenas observar o apetite que cada um tem para o risco, mas principalmente o quão sujeito à variação o jogo de cada um está. Usando softwares como Poker Tracker e Holdem Manager, podemos saber qual é a nossa winrate (taxa de vitória), tanto para cash game, cujo índice é BB/100, quanto para sit-and-go ou torneio, medido pelo ROI. Quanto menor for a nossa winrate, mais sujeitos à variação estaremos e, portanto, mais cautelosos devemos ser com nosso bankroll.

Vale lembrar que – ao contrário de muitos comentários que já ouvi – o número de mesas, por si só, não faz aumentar a variação: alguém que joga dez mesas com um ROI de 5% está sujeito à mesma variação de um jogador que está em duas mesas e tem o mesmo ROI de 5%. O que ocorre é que, normalmente, quando alguém eleva seu número de mesas, sua winrate cai, aumentando sua variação. Este é o motivo pelo qual os jogadores de medium e de high stakes estão mais vulneráveis à variação: a winrate deles é menor.

Diante disso, podemos nos orientar da seguinte forma: jogadores iniciantes, que enfrentarão stakes mais baixos, tendem a vencer aquele jogo com uma boa margem de winrate, ou seja, estão menos sujeitos à variação. Assim, podem adotar, no caso do quadro, a postura moderada ou até mesmo de alto risco. Mas, à medida que sobem de limites, naturalmente terão que buscar um enfoque de moderado a conservador para prevenir o bankroll das variações negativas mais fortes que invariavelmente acontecerão.

Como você já deve ter percebido, no final das contas, o importante nessa relação entre bankroll management e variação é sempre sentir-se confortável para jogar dentro de determinado limite, e não atuar sob a pressão psicológica de precisar vencer ou de não poder perder. Além disso, sempre que for preciso, desça de limite e recupere seu bankroll e sua confiança. Dessa forma, você certamente terá amadurecido como jogador e estará pronto para escalar a montanha dos stakes. ♠

Março (ESCALANDO A MONTANHA, Bankroll Management e Variação)

Durante nossa evolução como jogadores de poker, muitas vezes nos encontramos diante de alguns dilemas: Devo subir de stakes ou não? Quanto é necessário para subir?  Qual momento adequado?  Essas e outras questões são resolvidas através do “gerenciamento de bankroll”, uma ferramenta fundamental para os jogadores de hoje. E muitos não dão a devida importância a esse controle, por absoluto desconhecimento de outro aspecto elementar do poker – a variação.

Mas antes de conversarmos sobre esses assuntos tão importantes, gostaria de me apresentar a vocês: sou Diego “vgreen22” Brunelli, gaúcho de Porto Alegre, tenho 28 anos e jogo poker profissionalmente desde outubro de 2007. No final do ano passado, fui chamado para fazer parte do PokerStars Team Online. Agora, aceitei com imenso prazer o convite para ser colunista do seleto time da CardPlayer Brasil.

Meu primeiro contato com o poker ocorreu em 2004, num casino no interior da Califórnia: eu havia trancado a faculdade de Direito e tinha ido morar por um ano nos EUA. Eu não tinha noção nenhuma das regras, mas achei muito interessante a dinâmica da mesa, a competição entre os jogadores e o fato de não ser contra a banca, mas uns contra os outros.

Quando voltei ao Brasil, tive notícias de que um amigo dos tempos de colégio estava jogando poker online e tendo algum sucesso. Então eu peguei com ele referências de sites de regras e estratégias, e comecei a jogar play money. Esse colega, desde a infância, sempre gostou de jogos de estratégia: ele era muito bom em xadrez, o que não me fez duvidar por nem um segundo que o poker era um jogo de habilidade. Isso me deixou fascinado para estudar e aprender. Eu já estava de volta às aulas, e na primeira semana que entrei em contato com o poker, li mais sobre estratégias na internet do que estudei o semestre inteiro na faculdade. Porém, até a conclusão do curso, aquilo era apenas uma diversão. Quando me formei, resolvi arriscar e tentar transformar meu hobby em profissão. Felizmente estou aqui hoje: sou jogador profissional de poker. Sem dúvida, tudo isso só foi possível graças a muitas horas de estudo e dedicação. Mesmo assim, acredito que meu principal mérito nessa caminhada tenha sido a seriedade com a qual sempre encarei o jogo, dentro e fora das mesas.

Comecei no cash game, nas mesas $0,01-$0,02 do PokerStars. Naquela época, ainda não existia NL5, então passei direto para NL10. Assim fui indo até NL50, quando descobri os sit-n-go. Comecei jogando SNG de $6 (single table) e os famosos “sitzões” de $4,40 (180 pessoas). Então resolvi focar no sit-n-go. Aos poucos fui me dando conta de que o importante nesse formato é o “volume”. Assim, dei muito mais importância em ir aos poucos aumentando o número de mesas ao invés de me preocupar em subir de stakes. Elevei os valores naturalmente. Apesar de ter me especializado em sit-n-go, sempre reservei atenção para o cash game, jogando e estudando – considero o aprimoramento do jogo tanto deep quanto short stack igualmente importantes.

Como vocês podem ver, meus focos sempre foram SNG ou cash game. Eu acredito serem essas as duas melhores formas de se construir um bankroll e de se viver profissionalmente do poker. Usando as ferramentas e softwares disponíveis, é possível analisar seu jogo e seus resultados, fazer estimativas e traçar metas, como em qualquer outra profissão. Já nos torneios multitable, as variáveis são muito maiores, e acho quase impossível ter esse tipo de planejamento analítico. Isso não quer dizer que não seja possível ser profissional de MTTs – no Brasil, inclusive, temos alguns bons exemplos de sucesso, mas considero imprescindível que, antes, se construa um bankroll sólido para suportar a variação dos torneios.

A variação talvez seja um dos aspectos mais desconhecidos e ignorados até mesmo por muitos profissionais. É por isso que, muitas vezes quando perguntados, jogadores experientes sempre mencionam o bankroll management (brm) como sendo um atributo imprescindível ao sucesso profissional de um jogador. Os dois conceitos estão intimamente ligados, e só quem conhece os perigos da variação reconhece a importância de um bom “brm”.

No poker, experiência não significa mais ter anos de vivência no feltro. A velocidade dos jogos online, juntamente com a possibilidade de se jogar muitas mesas ao mesmo tempo, tem transformado jogadores jovens em experts extremamente capacitados. Não à toa, alguns dos melhores do mundo hoje têm menos de 25 anos de idade e já acumulam uma bagagem de milhões de mãos jogadas. Arrisco dizer que, sentados à mesa, eles são tão experientes quanto Doyle Brunson. Ou alguém duvida da experiência do “Durrrr”? Ou do “Nanonoko”, que em 2009, por exemplo, jogou mais de 2 milhões de mãos.

Para ilustrar quão severa pode ser a variação do poker, vamos observar o gráfico abaixo. Ele representa as últimas 500 mil mãos disputadas por “WizardOfAhhs”, um dos melhores shortstackers da atualidade. Além de ser um excelente jogador, ele é o segundo que mais acumulou VPPs em 2010 no PokerStars. A linha verde representa o lucro dele; a amarela (all-in EV), quanto deveria ser o lucro dele não fossem as bad beats contra ou a favor. Isto é, ele está lucrando $10.025 quando na verdade deveria estar recebendo $38.200.  Em outras palavras, ele está $28.175 negativo em EV. Que nome se dá a isso? Variação! Normalmente, ela é mais perceptível em casos como esse, quando é negativa.  No caso específico dos shortstackers, outro fator também ajuda a acentuar a variação: a frequência de showdowns. Quanto maior o número de showdowns, maior a variância.

Agora, e se ele fosse um jogador break even, que ficasse no zero a zero, com 20K de bankroll, e se aventurasse nas mesas de mid-high stakes cash game? Teria quebrado. Isso apenas demonstra como fatores alheios à habilidade nas mesas, como controle de bankroll e equilíbrio emocional para lidar com o tilt, são aspectos fundamentais que devem ser observados na evolução enquanto jogador de poker.

Na próxima edição, veremos como fazer um gerenciamento de bankroll adequado, de acordo com o tipo de jogo, como se prevenir de quebrar, e o mais importante, sentir-se confortável dentro dos limites escolhidos. Também conversaremos um pouco mais sobre variância, e a importância de manter a confiança quando esse fator estiver contra nós. ♠

Coluna Card Player

Nessa seção ficarão postadas minhas colunas para a revista Card Player Brasil. Aguarde!

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